Consignado CLT com FGTS: o que acontece com seu saldo se for demitido?
Foi demitido com consignado CLT e FGTS? Saiba qual parte do seu saldo o banco pode acessar, a ordem das garantias e algumas orientações para se resguardar.
Atenção: usar o FGTS como garantia no consignado CLT pode afetar sua rescisão

Você optou pelo consignado CLT com FGTS como garantia para deixar de pagar o rotativo do cartão ou garantir um alívio financeiro até o fim do mês.
De repente, surge a dúvida: e se eu for demitido amanhã? É uma preocupação comum e válida.
A partir de 26 de junho de 2026, as regras foram atualizadas. Agora, o banco pode usar parte do seu FGTS, da multa de 40% e das verbas rescisórias para quitar o empréstimo caso você seja desligado.
Neste artigo, você vai entender quanto do seu saldo pode ser utilizado, em qual ordem, para cada tipo de demissão, e como evitar sair da empresa com dívidas maiores do que espera.
O que ocorre com o FGTS no consignado CLT se eu for demitido?
Se você for demitido sem justa causa e tiver utilizado o FGTS como garantia, o banco pode fazer descontos, seguindo esta ordem:
- Até 35% das verbas rescisórias (saldo de salário, férias proporcionais, 13º proporcional etc.);
- Até 10% do saldo do FGTS (somente para quem está no saque-rescisão);
- Até 100% da multa rescisória de 40% do FGTS.
Se esses valores não forem suficientes para quitar a dívida, o saldo que sobrar continuará disponível para você.
Você poderá optar por pagar via boleto, ou o desconto será retomado automaticamente assim que conseguir um novo emprego com carteira assinada.
As regras constam na Portaria MTE nº 1.115/2026 e na Resolução CGCONSIG/MTE nº 3/2026, publicadas no Diário Oficial em 25 de junho de 2026.
Por que o consignado CLT com FGTS se tornou uma questão urgente?
Os juros caíram, mas o crédito ainda é caro
No dia 16 de setembro, o Copom decidiu por unanimidade baixar a Selic de 14% para 13,75% ao ano.
Embora seja um progresso, essa taxa ainda está entre as mais altas do planeta.
No cartão de crédito e no cheque especial, as taxas de juros seguem muito elevadas. Por isso, muitas pessoas optam por trocar essas dívidas pelo consignado, que costuma ter juros menores.
Grande parte dos brasileiros está endividada
Segundo o Boletim Econômico de Setembro/2026 da Serasa Experian, em julho o país registrava 83,9 milhões de pessoas com dívidas vencidas.
Essas pessoas somavam R$ 586,5 bilhões em débitos, com uma média de R$ 6.987,23 por CPF e aproximadamente quatro dívidas por pessoa.
O programa cresceu rapidamente
O Crédito do Trabalhador, nome oficial do consignado CLT, foi criado em 21 de março de 2025.
Até abril de 2026, o programa já havia movimentado R$ 131 bilhões e atendido 9 milhões de trabalhadores, segundo dados da Agência Brasil.
Seu FGTS teve aumento em agosto
Até 31 de agosto, a Caixa distribuiu R$ 13 bilhões dos lucros do FGTS para 138,2 milhões de trabalhadores, conforme informações do Ministério do Trabalho e Emprego.
Esse valor corresponde a R$ 18,68 para cada R$ 1.000 depositado, elevando o rendimento do fundo para 6,90%, acima da inflação de 2025 (4,26%). Um saldo maior também significa mais garantia disponível.
Como funciona a garantia do FGTS no consignado CLT
A ordem de uso é fixa
O banco não pode escolher livremente de onde sacar o dinheiro primeiro.
A sequência obrigatória é: verbas rescisórias → saldo do FGTS → multa de 40%. Isso protege você. O FGTS só será usado caso as verbas rescisórias não cubram a dívida.
Só você pode autorizar
A garantia necessita da sua autorização explícita, que deve estar registrada na Carteira de Trabalho Digital.
A empresa não pode conceder essa autorização por você. Sua função é apenas incluir as informações na folha de pagamento e no eSocial.
Como ficam os contratos firmados antes de junho de 2026?
Os contratos realizados antes da alteração das regras foram convertidos automaticamente.
A parcela mensal passou a corresponder a um percentual de garantia sobre as verbas rescisórias, limitado a 35%, sem precisar de nova autorização sua.
De que forma seu saldo é impactado em cada tipo de desligamento
Demissão sem justa causa
Nesse cenário, quem corre o maior risco de perder saldo é você.
O banco pode usar as três garantias disponíveis: 35% das verbas rescisórias, 10% do FGTS (caso tenha saque-rescisão) e até o total da multa de 40%.
Pedido de demissão
Quem opta por pedir demissão não recebe a multa de 40% e não tem direito ao saque do FGTS. Por isso, apenas as verbas rescisórias (até 35%) podem ser utilizadas.
O valor que sobra da dívida continua vigente.
Justa causa
É parecido com o pedido de demissão: apenas as verbas rescisórias são consideradas.
O FGTS e a multa não são incluídos porque você não tem direito ao saque.
Entendimento do acordo entre empregador e empregado
No caso de demissão consensual, conforme a Reforma Trabalhista, a multa reduz para 20% e o saque do FGTS fica limitado a 80% do saldo disponível.
Confira no seu contrato como o banco trata essa situação, já que as regras da garantia mencionam claramente outras modalidades de rescisão.
Quando a garantia não cobre totalmente, o que ocorre com a dívida?
A dívida permanece ativa
Segundo a Serasa, se as garantias não cobrirem o total, o pagamento volta a ser cobrado assim que você conseguir um novo emprego com carteira assinada, já com os valores atualizados.
Antes disso, o banco pode oferecer boleto ou outra forma de pagamento.
Quando começar no novo emprego, o desconto é feito automaticamente
As informações são enviadas via eSocial e FGTS Digital. Assim que o vínculo com o CNPJ da nova empresa for registrado, o desconto em folha é reativado.
O Banco Mercantil recomenda pagar por boleto durante o mês de transição para evitar atraso nas parcelas.
Saque-aniversário e consignado CLT: uma combinação que traz riscos
Quem escolhe o saque-aniversário abre mão de sacar o saldo completo do FGTS em caso de demissão.
Nessa condição, a garantia de 10% do saldo não é válida, mas a multa de 40% ainda pode ser utilizada como garantia.
Se você antecipou o saque-aniversário, uma parte do seu FGTS já estará comprometida com outra instituição financeira.
Em caso de demissão, o saldo disponível pode ser muito pequeno. Antes de somar esses dois compromissos, confira no app FGTS quanto do seu saldo está bloqueado.
5 cuidados importantes antes de usar seu FGTS como garantia
1. Use o empréstimo para trocar dívidas caras por opções mais baratas
O consignado é interessante quando substitui o rotativo do cartão de crédito ou o cheque especial.
Colocar o FGTS como garantia em empréstimo de consumo pode comprometer sua reserva para emergências caso você perca o emprego.
2. Analise a estabilidade do seu emprego
Se a empresa está realizando demissões, você está em contrato de experiência ou seu setor apresenta instabilidade, a possibilidade de perder a multa de 40% é maior.
3. Compare o CET, não apenas as taxas de juros
Dois bancos podem oferecer juros iguais, mas o custo total pode variar por causa do seguro prestamista. Peça o Custo Efetivo Total detalhado por escrito.
4. Leia com atenção o que está autorizando na CTPS Digital
A garantia só passa a valer após sua confirmação. Confira quais garantias você está liberando e qual o percentual envolvido.
5. Preste atenção também à sua saúde mental
Dívidas e a incerteza sobre o emprego estão entre os maiores causadores de ansiedade. Se as contas estão te preocupando demais, conversar com alguém de confiança e elaborar um plano pode ajudar a reduzir esse estresse.
Se precisar, o CVV atende 24 horas pelo telefone 188.
Opinião do autor
Depois de 10 anos escrevendo sobre crédito, cheguei a esta conclusão: o consignado CLT com FGTS é uma ferramenta valiosa, mas muitas pessoas acabam usando no momento errado.
Com juros mais baixos, esse crédito pode ajudar uma família a sair do rotativo do cartão, que é a dívida com maior custo no país.
O problema é que muitos trabalhadores não percebem que estão usando como garantia o dinheiro que os protegeria em caso de demissão: a multa de 40%.
As regras de junho de 2026 trouxeram mais clareza: ordem fixa, limites definidos e autorização obrigatória via CTPS Digital. Porém, transparência não substitui o cálculo cuidadoso.
Minha recomendação é direta: só utilize o FGTS como garantia se o empréstimo for para pagar uma dívida mais cara e seu emprego estiver relativamente estável.
Se não for essa a situação, um empréstimo menor sem essa garantia pode ter parcelas maiores, mas oferece proteção caso você perca o emprego.